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A ética das relações públicas: utopia ou realidade?

05 fevereiro 2019

Nas últimas décadas, tanto o Brasil como outros países foram marcados por escândalos econômicos e políticos. Tais fatos abalaram as estruturas e os valores morais ao redor do mundo, como consequência da corrupção. Esse fenômeno social é reflexo da cultura levada a cabo, sem princípios éticos. É um mal do poder público em todos os níveis, provocando desvios de recursos públicos que acarretam no abandono de obras importantes da vida urbana e levam a um Estado crônico de subdesenvolvimento.

Em decorrência deste colapso ético e moral, a sociedade contemporânea passa por uma crise de identidade. Por isso, discutir sobre a ética é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, transparente e que vise o bem-estar da população. Nesse sentido, o profissional de Relações Públicas possui papel importante no assessoramento da alta administração e sua função deve ser de consultor, buscando criar ações e estratégias que fortaleçam uma comunicação dialógica da organização com seus públicos.

Uma vez que a profissão tem como objetivo aproximar as relações entre a organização e o seu respectivo público, subentende-se que a ética seja primordial para tal tarefa. Mas como isso é possível, tendo em vista que o RP é um profissional contratado e deve trabalhar de acordo com a cultura organizacional? Como conseguir equilibrar os valores individuais e organizacionais?

A discussão sobre a ética das Relações Públicas não é o foco principal do campo acadêmico, tampouco do mercadológico. Com o passar dos anos, considero que a ideia do “ser ético” foi se banalizando. Sempre partimos do pressuposto que uma determinada pessoa age de maneira transparente e, portanto, questões que envolvem os dilemas profissionais quase nunca entram em pauta.

Em pesquisa realizada por Theodoro e Gonçalves (2018), foi constatado que, entre os anos 2000 e 2015, nas principais revistas científicas do mundo da área das Relações Públicas, a Public Relations Review e Jornal of Public Relations Research, contabilizaram apenas 72 que tratavam desse assunto, em um universo de 1.109 artigos publicados (6,5%).

Em contrapartida, o estudo realizado pela Global Alliance (2018) apresenta dados importantes para a discussão da ética na nossa profissão: 62% dos profissionais entrevistados afirmaram que em cinco anos as empresas serão mais éticas, enquanto 12% acreditam que serão menos éticas. Cabe destacar também que 75% dos estudantes entrevistados alegaram que a ética desempenha um papel muito ou extremamente fundamental para a carreira das Relações Públicas.

A partir das considerações acima, espera-se que as empresas se tornem mais éticas ao recorrer dos anos, mas será que isso é possível diante do atual cenário de corrupção empresarial e governamental? E mais do que isso, sem o apoio teórico e de pesquisas empíricas realizadas pelos centros de investigação?

Logicamente não temos resposta para os dois questionamentos. No entanto, eles servem para nos guiar e refletir: qual o tipo de profissional que eu gostaria de ser? Como estou contribuindo para um futuro mais ético e, consequentemente, melhor?

Sim, eu acredito que é possível atuar de forma ética. Afinal, essa prática é vista como elemento fundamental à institucionalização das Relações Públicas, como legítima nas organizações e na sociedade. Por fim, ressalto a importância de construir uma imagem real da organização, colaborar com a construção de uma opinião pública pautada pela transparência e veracidade, além de outras funções que podemos desempenhar como profissionais de comunicação.

Victor Theodoro

Doutorando dupla-titulação em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior (UBI - Portugal) e Universidade de São Paulo (ECA-USP). Assistente de Comunicação Corporativa na Press à Porter, ruivo, interiorano e apaixonado por livros, futebol e cerveja.

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